5 tipos de negócio que são muito difíceis para o empreendedor brasileiro

Eu vejo centenas de startups todo ano. O mais legal é acompanhar a evolução destas empresas ao longo do tempo e perceber os modelos de negócio, mercados e empreendedores que mais conseguem crescer.

Acredito que bons times consigam ter sucesso, mesmo quando as chances estão contra, mas mesmo assim existe alguns tipos de negócio mais difíceis que outros. Resolvi listar aqueles que são os mais complicados e apontar as principais causas para estes problemas.

Business growth

E-Commerce – o e-commerce nacional não para de crescer. Deve ultrapassar os R$ 40Bi este ano, com produtos que não imaginávamos sendo líderes em vendas, como cosméticos e moda. Com este cenário, me parece uma grande aposta para montar a minha startup, certo? Infelizmente a realidade não é tão animadora. Existem dois fatores que dificultam muito a vida das startups neste segmento. O primeiro é a margem do negócio. Mais do que a margem, é o fluxo de caixa. Conheço poucos e-commerces no Brasil que conseguem realmente lucrar. A margem geralmente é esmagada pelo frete grátis, parcelamento (crédito) e pelo ciclo financeiro do negócio. O outro fator, que só agrava a situação é o fato de o negócio ser extremamente intensivo em investimento em marketing. O e-commerce é um dos grandes setores que movem a mídia online no Brasil e realmente elevou o nível técnico dos profissionais a outros patamares em mídia de performance (Google, Facebook Ads…) e outros formatos. Mas também fez com que o custo dos anúncios aumentasse na mesma proporção. Ou seja, é preciso grandes aportes de investimento para manter um e-commerce vivo no Brasil. E isso desestimula os entrantes. Como alternativas a estes problemas, os empreendedores podem buscar mercados de nicho, o que pode impactar o crescimento do negócio, ou tentar encontrar formas de aumentar a margem associando o modelo da venda online a outras estratégias, geralmente integradas verticalmente (eu produzo e vendo, por exemplo).

 

Redes Sociais – Quando olhamos o valor de mercado de empresas como o Facebook, Twitter, Linkedin e várias outras, é fácil pensarmos que poderíamos criar uma rede social explorando algum ponto ainda não trabalhado. Acredito que realmente existam oportunidades no mercado. O problema é que este tipo de negócio tem alguns elementos que o tornam difíceis, especialmente no mercado brasileiro. O primeiro ponto é o entendimento da dinâmica do negócio, ou seja, como funciona o motor de crescimento. Todos os exemplos de rede social que falei anteriormente tem uma característica em comum: O custo de aquisição (ou CAC) é zero ou muito próximo a zero. A empresa não precisa investir em nenhum tipo de mídia para que as pessoas se cadastrem. E isso é muito difícil de conseguir. Geralmente começa-se em um nicho específico e se trabalha o crescimento a partir daí, melhorando/adaptando o produto e aumentando o engajamento dos usuários ao longo do tempo. Parece mais fácil do que realmente é. Vide o caso do Google, que despejou milhões de dólares no Google Plus, sem sair do lugar. Para dar o tempo necessário ao crescimento orgânico do negócio, é preciso de dinheiro para manter a empresa pelos anos em que vai descobrir como acertar. O grande problema é que este dinheiro é muito raro no Brasil. Mesmo nos EUA este dinheiro é difícil. Apenas na costa oeste ainda existem (cada vez menos) investidores dispostos a financiar um negócio por anos a fio até ver algum faturamento. Como alternativa, é possível pensar em negócios que pegam carona em redes sociais já existentes, usando suas APIs para se conectar aos milhões de usuários que já utilizam estas redes. A estratégia de “pegar carona” já foi usada por vários players de mercado, com variados graus de sucesso, mas é uma alternativa.

Games – Eu adoro games! Até tento não jogar muito, pois tenho muita propensão a ficar viciado em um determinado jogo. Isso não quer dizer que não ache o mercado muito difícil no Brasil. Ao nos depararmos com casos de empresas como Supercell (League of Legends), Rovio (Angry Birds) e Zynga (Farmville), podemos pensar que jogos são uma excelente oportunidade para ganhar dinheiro, mas o modelo de negócios de jogos não é simples, assim como o ecossistema. É muito difícil utilizar o modelo Lean com jogos, ou seja, validar com clientes antes do produto estar pronto. Geralmente eu preciso investir bastante antes de conseguir efetivamente testar. E nada indica que este jogo vai ser um hit. Provavelmente eu terei que fazer diversos jogos (a Rovio fez mais de 50 até acertar o Angry Birds) até conseguir chegar em um que me gere receita, sem ter a certeza que algum dia conseguirei. E neste meio tempo, como pagar as contas? Para piorar, concorremos com ecossistemas muito maduros na produção e distribuição de jogos, como o asiático, por exemplo. E neste mercado, a competição é global no momento zero. Ou seja, eu preciso ser o melhor do mundo naquele tipo de jogo, lembrando que provavelmente vai ter um grupo de garotos tailandeses trabalhando 24hs por dia em uma idéia semelhante, ganhando quase nada. Eu acredito que o Brasil está se tornando cada dia melhor em jogos e já temos exemplos de empresas nacionais que estão conseguindo mover a agulha globalmente. Mas ainda temos pouco financiamento no país para este tipo de negócio e uma base de talentos ainda pequena. Como alternativa, existe um mercado gigante de jogos para o mundo corporativo (na educação, por exemplo). Neste caso, o faturamento é bem mais fácil e é possível aprender muito com este mercado antes de tentar um hit global.

Aplicativos – Este talvez seja o mais comum dos objetivos de empreendedores: Criar apps. Sou um grande usuário de apps. Estou sempre testando novos, mas se for pegar uma estatística daqueles que mais uso, geralmente não são apenas APPs, mas continuações mobile de uma plataforma maior. Por exemplo, eu uso muito o Kindle, que é um app do iOS. Mas ele faz parte de todo o ecossistema de e-books criado pela Amazon. Também uso o Netflix, que é a mesma coisa. Talvez o mais APP dos APPs que eu uso seja o Evernote, que mesmo assim está instalado também no meu Desktop (onde estou escrevendo este texto). Ou seja, praticamente todos os aplicativos que uso, são plataformas maiores. Sempre quando um empreendedor me fala que está fazendo um APP, eu respondo: Por favor, me diga 3 APPs que ganham dinheiro. Dinheiro de verdade. Geralmente, ou o empreendedor me dá exemplo de algum app que fatura muito pouco ou de algum que foi comprado por uma grande empresa, como o Instagram, por exemplo. O fato é que APPs tem muita dificuldade de rentabilizar. Além de precisar de um número muito grande de usuários para que as compras dentro do APP gerem uma receita relevante, mesmo assim são pouquissimos casos onde estamos falando de uma grande empresa. Se o objetivo é ser vendido para um Facebook ou Google, as chances ainda são mais remotas. O dilema da aquisição de usuários também é verdadeiro aqui. Como alternativa, eu sugiro pensar em uma plataforma maior, onde o APP é mais uma ponta. Uma plataforma que gere um valor claro aos seus usuários, seja B2C ou B2B certamente precisará de uma excelente interface móvel.

Negócios baseados em publicidade – O mercado de publicidade online no Brasil ultrapassa R$8Bi. Sensacional, certo? Eu acredito que sim. Mas isso não justifica que você crie um negócio cuja principal fonte de receita seja publicidade online. A principal razão é que para conseguir chegar a uma receita relevante você precisa de muita audiência. Não estou falando em um site com 20 ou 30 mil acessos mês, mas de milhões de visitas. E mesmo com milhões de visitas, ainda assim não é fácil monetizar apenas com publicidade. É por isso que a grande maioria dos veículos americanos está criando novas fontes de receita para os seus negócios. Pela primeira vez na história o faturamento de assinantes do New York Times é maior do que o de anunciantes. Supondo que mesmo assim você insista em criar um negócio baseado em publicidade, como você vai chegar a um tráfego relevante mantendo o custo de aquisição de usuários próximo a zero? Normalmente o SEO (Search Engine Optimization) e as redes sociais são as formas mais utilizadas, mas mesmo assim levam tempo e isso demanda investimento. E a grande maioria dos investidores brasileiros (e mesmo nos EUA) não estão dispostos a financiar um negócio por anos para talvez monetizar lá na frente com publicidade. Como alternativa, se você já tem uma grande audiência, é possível encontrar outras formas de monetizá-la, criando produtos ou serviços de assinatura, por exemplo, que consigam gerar receita imediatamente. E a publicidade fica uma receita auxiliar ao negócio, não o motor do crescimento.

Espero que esta visão tenha sido útil aos empreendedores que estão avaliando diferentes modelos de negócio. Como falei, todos eles tem o potencial de dar certo, mas deixo claras aqui as dificuldades que encontro todo dia ao interagir com empreendedores e startups.

By PEDRO WAENGERTNER

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